f-i49. | Quarto Dialogo.
Se confiamos nas cousas e as temos por mui certas, aimais das vezes nos deixam mui enganados e vazios de nossa väconfianca. E polo contrario, algumas vezes (que näo serä entäo)lhe[s] näo podemos fugir nem a nos ella[s], e quasi forcadamenteacontece.
Assim como foi ao seguinte dia da pratica que tevemossem a Marquesa, que, vindo eu bem descuidado d'ouvir missada Madonna da Paz, achei a um criado de M. Lactancio, o quälme pos pena da parte da senhora Marquesa que, como jantasse,me achasse em Monte-cavallo no mosteiro de Säo Silvestre.
f. 149. Näo pude deixar de obedecer, e jantei | muito de pressa;
v ' porque me parecia a mim que ja d'ali a muitos dias näo nosajuntariamos em tal lugar, nem teriamos a nobre corte que nosfazia a companhia da Marquesa, onde determinei de näo perdertäo boa ocasiäo. Mas como o determinei, logo me determinaramde desviar alguns desvios, porque o embaxador Dom PedroMascarenhas mandou-me entimar para ir a casa do Papa e SixtoCordeiro, o mais galante dos Portugueses que havia em Roma,mandou-me dizer que me esperava na rua de Bancos para iremosreceber cartas de Portugal, porque era vindo a stafetta de Spanha.
Porem eu determinei de me soltar de tudo isto, e fui-me caminhode Monte-cavallo. E todavia, parecendo-me cedo e passando porcasa do cardeal G r i m a 1 d o (sie) quis lembrar a Do?ti Julio <Macedonia, seu gentil hörnern, e o mais consumado de todos osluminadores d'este mundo, quis lembrar uma obra que me fazia.