Segundo Dialogo.
Toda aquella noite cuidei no passado dia, e me estive aper-cevendo para o que estava por vir. Mas muitas vezes acontecef. 113. ficarem incertas e väs | as nossas determinacöes, e muito ao con-trario do que nellas assentämos, como entäo aprendi. Ao seguintedia me mandou a mim dizer Messer Laciancio que ja nos näopodiamos ajuntar aquelle dia, como tinhamos ordenado, por certonegocio que sobreviera ä senhora Marquesa, e ao mesmo Mi-cael Angelo, mas que para dali a oito dias me achasse em SäoSilvestre, que para entäo ficara deliberado.
Achei largos aquelles oito dias, e, emfim, quando me vino domingo, pareceu-me breve o tempo e quisera-me ter maisarmado de avisos para täo nobre companhia como era aquella.Mas quando eu cheguei a Säo Silvestre, ja a licäo das Epistolasque frade Ambrosio lia, eram acabadas e eile ido; e comecavama murmurar do meu tardar e de mim.
Depois de me perdoarem, confessando-me eu por pre-guicoso, e, depois de um pouco me motejar a senhora Marquesa,e eu outro pouco a Micael Angelo, tendo licenca de tornaremosa proceder na pratica passada sobre a pintura, comecei a dizer:
— »Parece-me, | senhor Michael Angelo, que me tocastes o
f. 113 domingo passado, quando nos quisemos partir, que se em o reino
v " de Portugal, a que cä chamaes Spanha, vissem as nobres
pinturas de Italia, que muito a stimariam, polo que peco de graca
ä Senhoria Vossa (pois que cä näo säo vindo por outros bene-